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  • Kleber Rodrigues

Olhe de novo para o seu problema!


Há poucos anos realizei um atendimento que se tornou emblemático, e serviu de inspiração para muitos colegas da área de desenvolvimento humano quando conto essa história. Espero que seja para você também!


Era uma tarde escaldante de verão, no centro do Rio de Janeiro, e era o meu primeiro atendimento com essa cliente: Uma executiva de uma grande seguradora.


Ela entrou atrasada para o nosso encontro, esbaforida, sentou-se diante de mim na sala de reunião, já se desculpando pelo horário e justificando-se com alguns afazeres do cargo.


Nem deu tempo para conhecê-la adequadamente, e ela começou a esboçar sua insatisfação. Dizia que trabalhava muito! Resolvia quase todos os problemas do departamento.


Quando surgia algo complicado? Ela era logo procurada!


Mas não era reconhecida pelo seu trabalho, pois há muito tempo aguardava uma promoção que nunca chegava.


Na minha cabeça se construía um plano claro e aparentemente simples de desenvolvimento: Bastaria aprender a delegar...


Perguntei a ela quem resolveria os problemas caso ela fosse promovida. Neste momento, ela respirou fundo, se calou por uns instantes, e então soltou uma resposta que eu não imaginava...


Contou que fazia terapia há 7 anos, e sabia exatamente o que se passava. Segundo ela, caía com frequência na armadilha da necessidade de aceitação. Por isso fazia tudo por todos, e tinha tanta dificuldade de delegar ou mesmo de ensinar outras pessoas, preferindo ela mesma fazer e ser querida por todos.


Ainda bem que ela me surpreendeu continuando seu relato - e a suposta origem deste comportamento:


Disse que havia nascido em uma cidade muito pequena, no interior do Rio de Janeiro, e sua família trazia uma história muito curiosa.


Seus pais tinham uma filha (sua irmã), e o sonho de sua mãe era ter um filho homem. Muito religiosa, pedia à Deus com frequência por esta dádiva.


Um belo dia ela engravidou, e eis que vem o menino. Entretanto houve dificuldades no parto, e o médico disse que seria impossível outra gravidez.


Claro que isso não importava! A alegria dela era imensa! Tinha o tão sonhado menino!

E, conforme o relato, a mãe mesma dizia que nunca havia sido tão feliz quanto nos meses que sucederam o parto. Disse ainda que a mãe havia “dedicado todo o amor e carinho para aquele filho”.


Passados pouco mais de um ano, aquele menino adoeceu. Contraiu uma pneumonia, e como os recursos no interior eram muito precários, ele não resistiu.


Contou que uma tristeza sem fim tomou conta da mãe. E reforçou que o médico havia dito que ela não poderia ter mais filhos! Era o trágico fim daquele sonho tão esperado.


... Até que um belo dia, indo contra as possibilidades científicas, ela engravidou novamente!

Imaginem a alegria desta mãe?! Estava certa de que Deus havia mandado de volta seu menino!


E alguns meses depois... nasce uma mulher: Minha cliente.


Ela relatou que nunca teve o amor da mãe. Que a irmã, era quem a levava para a escola e para a igreja. Que sempre foi rejeitada, relatando inclusive um episódio em que se recordava que a mãe estava sentada no sofá, e ela se deitou, repousando a cabeça no colo da mãe, e havia sido empurrada para o lado.


Resumindo a história, contou que sua mãe já era falecida, e que, depois de anos de terapia, descobriu que buscava aceitação das pessoas para suprir a falta do amor da mãe, que nunca teve.


Nesse instante eu olhei nos olhos dela, com uma tranquilidade que eu mesmo me impressionei depois, e disse: “- Não entendi...”


Ela começou a repetir que nunca teve o amor da mãe, e eu a interrompi: “- Espera! Você disse que nunca teve o amor da sua mãe?”


Com uma expressão impaciente ela começou a querer voltar na história do sofá, e mais uma vez eu não deixei que ela continuasse: “- Você disse que antes de você, ela dedicou todo o amor e carinho ao seu irmão. Qual foi o resultado dessas ações?”


A expressão dela congelou, enquanto os olhos se enchiam de água, e eu continuei:

“- Sua mãe se privou do seu contato e do seu carinho para que a história não se repetisse... por medo de perder você. E eu não consigo imaginar um amor maior do que esse. Acredite, ela deve ter sofrido como ninguém.”


Seguiu-se uma enxurrada de lágrimas, que lavou a alma e o coração dela. Quando estava mais calma, eu pedi que, naquela noite, ela rezasse pela mãe e dissesse que agora ela a compreendia.


... E terminei a sessão.

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